Monday, March 05, 2012

calma, calma, esse medo de afogar vai passar as tempestades, os barcos desvairados, os bichanos acuados e os cães ladrando de pavor já vão, já já acalma! o coração barulhento a respiração desritmada e os rostos centenas de rostos correndo de lado a outro murmurando medos ininteligíveis sob o som do mar os santos vão cantar e dançar e sorrir sobre nossas carcaças amedrontadas pela morte iminente e esqueceremos, como sempre, que era só calmaria
e silêncio
e solidão das outras gentes
que nos aguardavam lá no fim da linha.

é garoa.

Thursday, January 26, 2012

Então você me diz que a vida é assim

e eu assino meu atestado de óbito sem herdeiros.

Wednesday, June 01, 2011

Frio. Frígido. Fundamentalmentiroso.
je suí desolê. Monami.
Monamour. Sem lamour.
Seco Sede
i-nes-ti-má-vel.
Me fala dos dias
como quem fala do manual
da tv
passo a passo
descompassada Minha respiração
no teu ouvido, ontem
gastei o ar
hoje faz falta
todos os toques tiques
Minha perna se move
in-vo-lun-tariamente Estou
fria. frígida. fundamentalmente
TUDO TODOS
ninguém

aqui.

acho que vou morrer de
saudade.

ou de tédio
sem você

aqui.

Tuesday, April 19, 2011

andando sobre pregos. um passo afoito e a delicadeza arduamente encenada vira melodrama. um passo afora e a aventura calculadamente espontânea vira nuvem escorrendo pelos dedos.

me movo líquida e lânguida pelas bordas do incontável.

era de se esperar o medo de furar o pé.

Thursday, September 02, 2010

"isso não vai dar pé", disse

enquanto surgia como alucinação pelo quarto de carpete queimado. entrou como se sempre estivesse estado lá, pacífica, plena, presente. sentou-se na cama desarrumada tirando as botinas e o maço do bolso. eu, atônita, atenta, não fiz-me de rogada e indaguei, como quem tivesse saudade, afinal, onde é que estava, onde é que tinha passado as noites, onde, onde, meu deus, como saiu assim, sem mais, fechou a porta e virou, como se esquinas não tivessem quinas e desvios não tivessem.. - ela riu. desabotoou a camisa e pediu pra que eu apagasse a luz, porque não conseguia sonhar se estivesse acesa. obedeci, não me recrimine, não posso com aqueles dois olhos azuis me fitando. então voltou? voltei-me para a cama malfeita de qualquer dia comum, em que ela não apareceria mesmo, então não haveria porque não evidenciar o descuido e ao final nem saberia dizer mesmo se era ela quem retornava da partida e sentava-se à meia luz ou era eu mesma que partia toda vez e regressava e tirava dos bolsos os maços vazios e sentava-me ao lado dela cantando qualquer canção cafona que envolvesse amores perdidos e regressos.

Wednesday, August 25, 2010

Jogos de Poder

Bateu as palmas e correu em minha direção. Eu, que mal sabia se era comigo mesmo, bati as minhas e corri na direção oposta. Me seguiu ao som de Madeleine Peyroux. Procurou com os olhos, se explicando, antes de qualquer questão, que não queria desvendar, queria tão somente conhecer. Deixei que me olhasse de braços cruzados, pra garantir. Abriu-me os braços, soprou um vento calmo, que me desarmou os traços. Sorri, como quem se diz feliz . Sorriu de volta, como quem bem sabe. Bati as palmas e corri afoita em sua direção. Ele, que sabia bem ser com ele mesmo, bateu as dele e correu na direção oposta. Segui, correndo, ao som da cidade vazia. Procurei com os olhos, explicando que queria tudo, tudo o que pudesse haver. Deixou que olhasse com os pés prontos pra partir, pra garantir.
Me desarmou e pediu: silenciosamente: deixa o corpo cair.
Caí no chão, me segurou: incisivamente: não precisa tanto.

Thursday, July 16, 2009

Quando a gente perde a familiriaridade com as palavras, quando a gente se acostuma a ficar brincando de fazer imagem o tempo todo, quando a gente fica só ouvindo o que os outros têm pra dizer da dor da gente.

É, eles falam melhor, falam mais bonito.

Mas aí a gente senta pra ressuscitar aqueles joguinhos de palavra, aquele traquejozinho malacabado de quem achou um dia que escrevia bem e não sai nada.

Eu juro, juuuuro que tinha muito pra dizer. Ando sentindo umas dores novas, mais complexas, mais conectadas com miliuma histórias. Ando descobrindo uns recalques novos também, umas novas auto-sabotagens de primeira e ah, acreditem, me deparei com umas felicidadezinhas bacanas.

Mas de que adianta, né? Não tenho nome ainda pra elas.