Sunday, September 21, 2008

Too young to hold on, too old to just break free and run.

Se tivesse vinis, se ouvisse a música, se houvesse apenas, não somente, mas apenas, um blues não tão blue.
Se tivesse vivido no tempo dos tempos, se houvessem contratempos, ah! se houvesse harmonia..
Se cedo tive ésses pro plural, se cedo tivésses me dito que, o que digo, não o que faço ou que falo, mas aquilo que escapa em deslizes verbais, ah! se tivésses me ouvido, veria, que tudo que vivi escapou pelos versos.
E se tivéssemos versos! você sabe, se tivéssemos visto por entre os vestidos os encontros no esbarrar dos tecidos, dos botões, do suplício do aviso. Se houvesse símbolo, afinal.
Signos, ao final,
ou epifania, ao sinal.

Se desse pra ouvir a música do LP fundido na agulha, dos tempos em que não havia mais LP, num marasmo banal de romantismo, se tivesse dado pra ouvir tudo aquilo que se diz ouvir apenas nos LPS,

talvez até desse mesmo, não sei, nunca ouvi.

Esperava pacientemente o partir. O momento que me diria que iria me deixar, ali, procurando o artesanato dos discos. Já são onze, enfim. Ainda não foi agora, embora eu precise de-ses-pe-ra-da-mente que me deixes, aqui, me encontrando com a mentira dos livros.

Wednesday, June 04, 2008

Gosto tanto. Uma pena ter dado errado. Me diz que não consegue ser de outro modo que não este, ou aquele, há uns meses atrás. Quiçá mudará nos entornos e declives e topará com outro modo, que não esse nem este - alguma catástrofe entre brindes em taças de cristal se sucederá. Me diz que precisa gostar menos das pessoas pra saber usar da retórica, algo como um duelo de gigantes numa cama de casal - confronto, afronte - desconfortável - eu disse - não é pra ser assim.
Me dá um beijo tímido no elevador, depois de um esboço de sorriso meu, porque eu ria e ria sempre, sem motivo, só relembrando os causos. Sorria também pra aliviar a clautrofobia do cubículo que eleva-nos sem janelas; senão a uma espiritualidade em potencial, ao menos no próximo andar, desço! Sorria pra mover os músculos e lembrar-me da existência de todos eles, cada qual com seu papel. Sorria de e por tudo, menos daquelas mini explosões coloridas que se tem vez em quando por dentro, assim, como se tudo fosse uma grande bolha prestes a explodir, sem muita dimensão.
Te digo que não consigo ser de outro modo. Sou sim, areal, branco, limpo, liso; - muito pouco daquele bar, colado à minha casa onde você, no calor da euforia, mentiu pra embelezar e se perdeu na beleza das palavras - eu endureci, não vê? Sabe aquela mania que eu tinha de ficar te encarando na pupila até você acabar de dizer tudo? Não vê que agora eu fujo de soslaio procurando perder meu olhar num ponto fixo qualquer só pra ter pra onde olhar?

Não é tu, não. Fui eu. Que não consigo ser mais de outro modo que não este.

Wednesday, May 14, 2008

Vinte minutos para sair. As palavras estão se embolando, dançando, dançando, acho que vão se encaixar de par em par e montar uma coreografia, sinto que vão. Sento na frente no computador e vou digitando, digitando, tentando achar, tentando. Cadê? onde foram parar? Sempre me deixam na mão. Vão! Contem-me alguma história interessante! Construam-se, apareçam diante de mim, suas covardes! Organizem-se, fluam, por que não fluem?
Dezessete minutos para sair. Sair, fluir, esvair.. associações pobres.. não estão se ajuntando com os pares certos, sinto que não. Ecos, vão! ecos. Penso em tartarugas. Movimento das tartarugas, acho bonito, sei lá. Não consigo continuar a falar sobre elas, talvez seja pouco. Talvez precisasse que elas dessem as mãos rumo ao universal, tartarugas são pouco.

Escrevo mais tarde.

Monday, May 12, 2008

Carta aos parentes na pré-fuga.

Fujo, apaziguada pelo refúgio. Peço calma aos carmins trépidos dos desvios coloridos com placas opostas, que vivem invadindo minha paz. Não fujo porque quero, afinal. Fujo porque não me deixam fugir em paz, quieta, na morbidez do meu tempo, cada vez mais desalinhado com as conjuncturas astrais do capital.
(saibam, quem não sabe ser sincero mente na confissão em primeira pessoa.)

Vou fugir: O tempo urge, as pernas tem cãimbra, os paralelepípedos clamam por mim - do lado de lá - lá, na esquina do desvio dos carmins.

Quem muito quer fugir tem na boca trêmula as palavras incertas, deslizando entre os dedos nas teclas do teclado, tentando buscar a sintaxe em algum complexo paranóico construtivista mayakovskiano. A semântica, pois bem: fiquei orfã desde que acordei e o mundo careceu de sentido.

Empacoto as roupas de frio e calor e de meia-estação que pouco servem; desengaveto a coragem que tanto me faltou ao fim da etapa do empacotamento nas fugas anteriores. Agora estou segura: nada me prende mais: nem pai, nem mãe, nem choro, nem ressalva, nem resguardo, nem comida de vó.

Peça por peça; me apresso; esqueço; tudo bem não faz falta; alta dose de descrença; desavença entre as vozes tilintando, perguntando em voz serena como é que eu faço pra chegar nos carmins.

Monday, April 07, 2008

Reich

Densidade febril. O suor encrustado na superfície áspera epitelial. A farda era o fardo: abotoava botão a botão sem sequer mover o olhar; mirava-o na parede branca, o queixo ereto, a postura firme, embora denunciasse ossos fora do eixo.
Os sapatos de gala eram botinas pretas com a ponta dura de aço; a gravata era a corrente que carregava no pescoço com algum santo provincial. Passa pelos quartos, pelo corredor sombreado e mofado, olha de soslaio o espelho grande de moldura acetinada. Já vai? Já. Vou.
Os resqúicios acendiam luzes. Tiros e carros e balés de corpos amontoados; carcaças e couraças rondadas por moscas; insanidade insalubre. Os contos de guerra contados pelo rodeio de vitória, com voz de derrota.
São Paulo, 2007. Os tanques transmutaram-se em ar condicionado, as celas em pequenas janelas múltiplas copiando-se, colando-se, copiosas nas verticais habitacionais. Empresariais. Os tiros de escapamento de motocicleta afogam as britadeiras. Implosões e construções. Andarilho de concreto. Estratégias pra atravessar a rua.
Sinalizadores de neon: Bingos. Máquinas e máquinas com alavancas que se empurra pra baixo. Limão, limão, cereja. Moedas, mais moedas. Limão, slogan, limão. Tilintar no bolso. Cereja, cereja, cereja. Multilhão de batuques de aço. O barulho de moedas calou, acessou os papéis, os cartões, os de crédito, assinou, fez contas com os lábios quietos, assinou.
Volta para o apartamento pelos cantos. As luzes acendem-se conforme percebem sua presença, apagam na ausência. Detectores de movimento. A hipoteca comeu os móveis, as jóias, o dinheiro no pé de meia dentro da gaveta. Chegou? Está com fome? Já. Estou. Te vi. Na tv. Um batalhão de soldados enfileirados. Estava de capacete, né? Eu vi. É. Onde é que é que vocês lutam? Luta, é luta. É gente contra gente. Sacolas e sacolas de roupas, louças, pratarias, mais jóias. Comprei. Vai vir uma medalha de honra, né? Quem vai pra guerra ganha indenização? Não sei. Acho que é. Ainda bem que você tá vivo.
A fluorescência da lâmpada comprida de cozinha espalha o ar. A cozinha é fria porque os azulejos gelam - como pisar no chão descalço. Desabotoa, alinha a roupa, põe a pasta na escova com cerdas violadas e estrias no cabo. O barulho é abafado, a boca está fechada. A luz da sala é luz azul que tremilica - luz de tv. O colchão do quarto tem molas e vísceras expostas de pelúcia, por entre os losangos de costura.

Senta, procura por Deus na mobília. Deita-se e dorme.

Thursday, April 03, 2008

Alice-rce

champagne azul, decorada. degolada, saltavam as veias azuis. o jazz no ouvido, tímpanos surdos da multidão. caiu, não deu um ai, um piu. miou pra dentro, na certa, no desconcerto do improviso da harmonia. as narinas brancas de pó, o pulmão preto de fumaça. esgarçava os batuques como nenhuma outra. talvez fosse só, só como todos sóis. talvez fosse sol. Maior.
quadrinhos eróticos, trincheiras, abotoaduras e sapatos de salto. cinzas pelo carpete, alquimia de quintal. lampejos, lampejos e mais lampejos. os olhões azuis, como as veias, me fitavam e me apertavam os trilhos. trens descarrilhados, sempre. ela deslizava na ponta de pé - um tanto ingênua. doce, sempre, doce. até quando esperneava nos contos de fada, catalisando a realidade na mais pura alfinetada.
assassinou os grilhões, andava cabisbaixa. os cílios de cima encostavam os cílios de baixo e ela pedia pra ir. os sinos tocando, as paredes gritando, as mesas redondas que ela tinha pela casa, pequenas, como nos cafés parisienses ou pés de meia de criança. a distância entre cafés e cirandas no fundo é bem pouca.
Pouca roupa, muito espaço. desenlace da casa, da rua, dos sonhos, do corpo. tudo é sempre muito-pouco: Muito e Pouco. A adrenalina estava fluindo, os desejos quase cabiam da porta pra dentro. mas eu aprendi o caminho da minha casa pra tua e aprendi, quase sem querer, a abrir a porta da rua.

Tuesday, March 18, 2008

Já era dia A simbiose quase vertia O sim da boca cheia De graça de cuspe selando a tarde vazia.
Que será que tu tem Tu que tem Tu que tinha Tu que tinha tudo e não sabia.
Rodopia sem gracejo Ponta de pé que vem Do relâmpago pro dedo: Tu danças como ninguém.
Agora me fita tá tudo bem Tudo cheira a alecrim Crina de vento Etér Eu Tu em mim.